Quantos médicos, advogados e engenheiros o Brasil forma

Peguei o Censo da Educação Superior do INEP desde 1994 e contei, ano a ano, quantas pessoas se formam nessas três profissões, quantos cursos existem e em que cidades eles estão. As três cresceram muito. Cresceram por motivos diferentes, e o que acontece com essa gente depois do diploma é diferente em cada uma.

Três perguntas antes dos gráficos

Este estudo começou de uma pergunta simples: o Brasil forma gente demais ou de menos nessas três profissões? Não dá para responder isso sem antes responder outras três.

Primeira: qual é a demanda de um país? Não existe número natural, e cada uma das três se mede com uma régua diferente. Médico se mede contra população e doença, e é a única das três com régua internacional pronta (médicos por mil habitantes, que a OMS e o Banco Mundial publicam). Advogado se mede contra volume de litígio, não contra população: um país pode ter pouca gente e muito processo. Engenheiro se mede contra taxa de investimento e composição do PIB, porque um país que investe 16% do PIB absorve menos engenheiro que um que investe 30%, com a mesma população.

Segunda: como se absorve essa demanda? Formar não é absorver. Depois do diploma cada profissão passa por um funil diferente, e o gargalo está em lugares distintos. Em medicina o diploma vira registro no CRM quase automaticamente, e o aperto está na residência. Em direito o diploma passa pelo Exame de Ordem, que reprova a maioria. Em engenharia o registro no CREA nem sempre é exigido na prática, e o aperto está no mercado, onde ninguém consegue enxergar direito.

Terceira: o que pode estar errado nesta própria conta? Deixei uma seção no fim só para isso, porque as armadilhas aqui são grandes o bastante para mudar a conclusão.

Formados por ano, 1994 a 2024

Em destaque
O que contar
Escala
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INEP, Censo da Educação Superior, sinopses estatísticas de 1995 a 2024, cursos presenciais. Engenharia soma todos os cursos cujo nome começa por "Engenharia", das cinco áreas em que a classificação do INEP os espalha. Em engenharia aparece também uma linha pontilhada com o ensino a distância somado, disponível a partir de 2009. Medicina e direito não podem ser oferecidos a distância no Brasil. Vagas e ingressantes só existem por curso a partir de 2009. Na série de cursos, o trecho até 1998 fica sombreado porque o INEP mudou a taxonomia em 1999 e desagregou engenharia, o que faz o número saltar sem que nada tenha acontecido no mundo. População: IBGE, projeção revisão 2018.

O que o gráfico mostra de saída

As três subiram, mas com formatos diferentes. Direito é a maior das três em qualquer ano da série e já era grande em 1994. Medicina é a menor e é a única que ainda está subindo em 2024, sem sinal de virada. Engenharia é a que mais se mexeu: subiu forte até o fim da década de 2010 e depois caiu quase pela metade.

Vale trocar a escala para "por 100 mil habitantes" no controle acima. A população brasileira cresceu cerca de 25% desde 2000, então parte do crescimento absoluto é só o país ficando maior. Depois de descontar isso o crescimento continua grande: entre 2000 e 2024 medicina foi de 4,6 para 17,7 formados por 100 mil habitantes, engenharia de 10,3 para 29,9 e direito de 25,4 para 45,2.

Medicina

Medicina é a profissão que mais mudou de tamanho relativo. Em 1994 o Brasil formava pouco mais de 7 mil médicos por ano. Em 2024 formou 38.501, cinco vezes mais, e o número ainda está subindo, porque boa parte das escolas abertas na última década ainda não tem turma formada.

38.501
médicos formados em 2024
467
cursos de medicina em funcionamento
67.894
vagas oferecidas por ano
16.189
vagas de residência de acesso direto em 2024

Onde tem curso de medicina, ano a ano

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Cada ponto é um município com pelo menos um curso presencial de medicina, e o tamanho acompanha a quantidade de cursos na cidade. Os pontos vazados são as cidades que estreiam naquele ano. INEP, Censo da Educação Superior, anexo por município, 2009 a 2024.

O mapa deixa ver o desenho da expansão. Em 2009 havia curso de medicina em 112 municípios. Em 2024 são 293. Ela não aconteceu nas capitais, que já tinham escola desde sempre, e sim no interior, e boa parte dela veio do programa Mais Médicos de 2013, que autorizou cursos novos com contrapartida de interiorização.

O problema aparece na etapa seguinte. Em medicina o diploma vira registro no CRM sem outro exame, então quem se forma vira médico. Só que virar especialista depende de residência, e aí a conta não fecha. Segundo a Demografia Médica no Brasil 2025, em 2024 havia 16.189 vagas de primeiro ano de residência em especialidades de acesso direto, contra mais de 30 mil concluintes no ano anterior. Essa diferença era de 3.886 vagas em 2018 e passou de 11 mil em 2024. No mesmo período o número de estudantes de medicina cresceu 71%, de 167,7 mil para 287,4 mil, e o de residentes cresceu 26%, de 37,7 mil para 47,7 mil.

Existe um detalhe que complica a leitura: parte das vagas de residência autorizadas fica sem ninguém. Em 2024 foram 4.659 vagas de primeiro ano não ocupadas, 19,2% do total, a menor taxa da série que começa em 2018 (o próprio estudo avisa que divulgações anteriores superestimavam esse número por falha de registro). Ou seja, não é só que faltem vagas em bloco. Faltam vagas nas especialidades e nos lugares que as pessoas querem, com bolsa que compense.

Direito

Direito é a maior das três e a que passou primeiro pela expansão. Em 1994 formava 27.198 pessoas por ano. Chegou a 126.109 em 2018, o pico da série, e caiu para 98.326 em 2024. Continua sendo a maior das três, com quase o triplo dos formados em medicina.

98.326
bacharéis formados em 2024
1.865
cursos de direito em funcionamento
1,50 mi
advogados inscritos na OAB
17%
aprovação média no Exame de Ordem em faculdade privada

Onde tem curso de direito, ano a ano

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Mesma leitura do mapa anterior, agora para direito. INEP, Censo da Educação Superior, anexo por município, 2009 a 2024, cursos presenciais.

Direito é barato de oferecer. Não precisa de laboratório, nem de hospital escola, nem de equipamento, e por isso é o curso que qualquer faculdade nova consegue abrir primeiro. O mapa mostra isso: 695 municípios brasileiros tinham curso presencial de direito em 2024, contra 293 com medicina.

O funil depois do diploma é o mais apertado das três. Para advogar é preciso passar no Exame de Ordem. Segundo o relatório Exame de Ordem em Números, da OAB com a FGV, a taxa média de aprovação é de 39% entre quem estudou em instituição pública e de 17% entre quem estudou em privada. Como 94% dos inscritos vêm de instituições privadas, a taxa efetiva do conjunto fica perto do número baixo. A OAB tem hoje 1.504.678 advogados inscritos, e o Brasil forma perto de 100 mil bacharéis por ano: a maior parte dessa gente nunca vai advogar.

Engenharia

Engenharia é a que mais oscilou. Subiu de 15.319 formados em 1994 para 126.451 em 2018, quase empatando com direito, e caiu para 65.189 em 2024. Perdeu praticamente metade em seis anos. O curso que puxou a subida e a descida foi engenharia civil: 18.392 formados em 2014, 49.121 em 2018 e 17.305 em 2024, de volta a um patamar abaixo do de dez anos antes. Somando o ensino a distância, que só engenharia tem entre as três, 2024 fecha em 87.718.

65.189
engenheiros formados em 2024, presencial
4.596
cursos de engenharia presenciais
1,2 mi
profissionais ativos no sistema Confea/CREA
92%
dos registrados em exercício, segundo o Confea

Onde tem curso de engenharia, ano a ano

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Mesma leitura dos mapas anteriores, agora para engenharia, somando todos os cursos cujo nome começa por "Engenharia". Só cursos presenciais: polo de EaD não é faculdade instalada na cidade, e contar polo levaria de 801 para 2.538 municípios em 2024. INEP, Censo da Educação Superior, anexo por município, 2009 a 2024.

A curva da engenharia acompanha o investimento. A subida coincide com o REUNI, com a expansão do FIES e do ProUni e com o ciclo de obras de 2010 a 2014. A descida começa depois da recessão de 2014 a 2016, quando a construção civil e a infraestrutura pararam de contratar. Quem entrou no curso em 2013 se formou em 2018, no pico, e encontrou um mercado que já tinha encolhido.

Aqui o funil é o mais invisível dos três. O registro no CREA é obrigatório para assinar projeto e assumir responsabilidade técnica, mas boa parte dos formados vai para funções que não exigem registro. O Confea tem cerca de 1,2 milhão de profissionais ativos e registrou perto de 74 mil novos profissionais em 2014 contra cerca de 43 mil em 2020. Como não existe exame de entrada, não dá para saber quantos dos formados estão trabalhando como engenheiros, e o próprio Confea trata isso como uma lacuna.

Quantos dos que entram chegam ao fim

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Formados de um ano divididos pelos ingressantes da turma que entrou na duração nominal do curso antes (6 anos em medicina, 5 em direito e engenharia). Não é a evasão de uma turma acompanhada aluno a aluno, e sim a razão entre dois fluxos, que é o que a sinopse do INEP permite calcular. Transferência, reingresso e formatura fora do prazo entram na conta, então valores acima de 100% são possíveis e não são erro. INEP, Censo da Educação Superior, 2009 a 2024, cursos presenciais.

Essa é a primeira perda, e ela acontece antes do diploma. Em 2024 a razão foi de 95% em medicina, 39% em direito e 33% em engenharia. Medicina quase não perde gente: quem entra termina. Direito e engenharia perdem dois terços do caminho, e engenharia perde um pouco mais, o que é consistente com o que se sabe sobre evasão em cursos com carga pesada de cálculo e física.

Somando as duas perdas, o funil de cada profissão fica com um formato bem diferente. Em medicina quase todo mundo que entra vira médico, e o aperto vem depois, na especialização. Em direito a maior parte chega ao diploma e para no Exame de Ordem. Em engenharia a maior parte da perda acontece dentro do curso, e depois do diploma ninguém consegue medir.

Médicos por mil habitantes, comparação internacional

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Banco Mundial, World Development Indicators, indicador SH.MED.PHYS.ZS, último ano disponível de cada país (indicado ao lado da barra). A fonte primária é a base da OMS, alimentada pelos registros nacionais, então a definição de "médico em atividade" varia um pouco de país para país.

O Brasil tem 2,36 médicos por mil habitantes. Nesta seleção de países fica em penúltimo, à frente só da África do Sul e da Índia, e atrás de Colômbia, México, Coreia do Sul e Japão. É esse número que sustenta a política de abrir escola médica, e ele é real. O que ele não diz é onde esses médicos estão: a média nacional esconde uma diferença enorme entre a capital e o interior do Norte, e abrir escola em cidade média resolve isso melhor do que abrir na capital, que era exatamente a aposta do Mais Médicos.

Para advogado e engenheiro não existe comparação internacional confiável nesse formato, e é melhor dizer isso do que inventar. A definição de advogado muda muito entre países: nos Estados Unidos conta quem passou no exame da bar association de um estado, na Alemanha o Rechtsanwalt exclui juízes e promotores, e em vários lugares consultor jurídico não é advogado. Engenheiro é pior ainda, porque em boa parte do mundo o título não é regulado e não existe registro obrigatório para comparar.

O que pode estar errado aqui

Diploma não é profissional. Tudo que está nos gráficos vem do censo da educação, e censo de educação conta diploma. Registro em conselho conta outra coisa, que inclui aposentado, inativo e quem tem inscrição em mais de um estado. Nenhum dos dois conta quem está de fato atendendo, defendendo ou assinando projeto.

Média nacional esconde distribuição. "Faltam médicos" e "há médicos concentrados nas capitais" são diagnósticos diferentes e pedem políticas diferentes. Os mapas deste estudo mostram onde estão as escolas, não onde estão os profissionais formados por elas, que é outra pergunta e precisa de outro dado.

Abrir faculdade responde a uma demanda que não é a da sociedade. Quem abre curso responde à demanda de quem quer o diploma, que é quem paga a mensalidade. A demanda da sociedade pelo serviço é outra coisa, e as duas se descolam. O gráfico de cursos abertos por ano mede a primeira, não a segunda, e é bom não confundir as duas na hora de ler.

A definição de engenharia é uma escolha minha. Somei todos os cursos cujo nome começa por "Engenharia" e deixei arquitetura de fora. Quem usa a área inteira da classificação do INEP ("Engenharia, produção e construção") chega a números bem maiores, porque arquitetura, construção e produção entram junto. As duas contagens são defensáveis, mas não são comparáveis entre si, e é por isso que este texto não repete números de engenharia de outras publicações sem conferir a definição.

Duas quebras na série. A sinopse do INEP mudou de taxonomia em 1999 e desagregou engenharia, então a contagem de cursos de engenharia antes e depois disso não é comparável (a de formados é). E até 2008 a sinopse por curso só publica presencial, então a série longa deste estudo é toda presencial, com o ensino a distância entrando à parte a partir de 2009.

A população é projeção. Os números por 100 mil habitantes usam a projeção do IBGE de 2018. O Censo de 2022 contou 203,1 milhões de pessoas e a Pesquisa Pós-Enumeratória corrigiu para 210,9 milhões, abaixo da projeção. Usei uma série só, para não abrir um degrau artificial no meio do gráfico, mas isso significa que os valores por habitante dos anos recentes estão levemente subestimados.

Fontes

Dados de formação

  1. INEP. Censo da Educação Superior, Sinopses Estatísticas, edições de 1995 a 2024. Brasília: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira. Fonte de todos os números de concluintes, cursos, vagas, ingressantes e matrículas deste estudo. As sinopses de 1995 e 1996 estão em planilha, as de 1997 a 2000 em PDF, as de 2001 a 2008 em planilha e as de 2009 em diante em pacote com anexos por município.
  2. INEP (2000). Evolução do Ensino Superior: Graduação 1980-1998. Brasília. Consultada para tentar recuar a série até 1980. Só traz concluintes por natureza da instituição e por área de conhecimento, sem série anual por curso, e por isso a série deste estudo começa em 1994.
  3. IBGE. Projeções da População do Brasil e Unidades da Federação, revisão 2018 (SIDRA, tabela 7358). Denominador dos números por 100 mil habitantes.
  4. IBGE. Censo Demográfico 2022 e Pesquisa Pós-Enumeratória. Base da ressalva sobre a população usada.

Medicina e residência

  1. Scheffer, M. et al. (2025). Demografia Médica no Brasil 2025. São Paulo: FMUSP, AMB e Ministério da Saúde. Origem dos números de vagas de residência de acesso direto, da defasagem em relação aos concluintes e da evolução de matriculados e residentes entre 2018 e 2024.
  2. AMB (2025). Panorama da Residência Médica no Brasil. Associação Médica Brasileira. Vagas autorizadas, ocupadas e ociosas.
  3. Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM/Sesu/MEC). Vagas de residência médica autorizadas e ocupadas. Fonte primária dos dados de residência citados acima.

Direito e advocacia

  1. OAB. Quadro da Advocacia, Conselho Federal. Total de advogados, estagiários e inscrições suplementares por seccional, atualizado diariamente pela própria OAB.
  2. OAB e FGV Projetos (2020). Exame de Ordem em Números, volume IV. Taxas médias de aprovação por natureza da instituição e distribuição dos inscritos.

Engenharia

  1. Confea (2025). A engenharia em números: uma análise histórica da profissão a partir de dados abertos do sistema Confea/Crea e do Censo do Ensino Superior. CONTECC 2025. Novos registros profissionais por ano e a defasagem entre formatura e registro.
  2. Confea e Quaest (2025). Mini-censo Confea 2024: profissionais com a palavra. Proporção de registrados em exercício e atuando na área de formação.

Comparação internacional

  1. Banco Mundial. World Development Indicators, indicador SH.MED.PHYS.ZS (physicians per 1,000 people). Compilado a partir do Global Health Workforce Statistics da OMS.

Geometria dos mapas

  1. IBGE. Malha municipal e estadual do Brasil. Contorno nacional e divisas internas, simplificados para SVG pelo script do próprio site.
  2. Base municípios-brasileiros. Coordenadas de latitude e longitude por código IBGE de município.

Os dados foram extraídos das fontes originais em agosto de 2026 pelo script scripts/profissoes/emitir.py, que está no repositório do site junto com o leitor de cada formato de sinopse. Confira as citações antes de reusar academicamente.

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