O ano de 2024 foi um ano de decisão, e toda decisão é uma forma de ruptura. Romper com todos os possíveis caminhos a não ser aquele que se optou.
Decidi finalmente romper com a carreira militar em que eu estava trilhando, em busca de um sonho.
Me perguntei: por que foi tão difícil tomar essa decisão?
Refleti sobre as escolhas e os motivos pelo que eu me tornei militar em primeiro lugar. Dizia a mim mesmo que as coisas foram acontecendo, que os caminhos foram se abrindo e a vida se encaixando… mas, quando olho para minha infância, eu já idealizava um pouco dessa vida. Me recordo das longas horas que passava desenhando aviões e tanques de guerra, das longas horas jogando Call of Duty, das inúmeras invenções de Legos que eu criava. Ter me tornado um engenheiro militar foi até algo natural quando relembro desses dias.
Não diria que fui desiludido pela carreira, pois no fundo já tinha as expectativas bem controladas. Acredito que foi uma fase em minha vida rica em experiências singulares, mas sabia que estava trilhando um caminho que não era o meu. Mas o guerreiro de luz às vezes trilha caminhos que não são o seu, de forma paciente ele sabe que terá um desvio na trilha, mesmo que tenha agora que ir para o caminho oposto, ele está disposto a ir.
Sinceramente, ser chamado de “senhor” me incomodava profundamente. Uma patente não significa nada. A hierarquia é uma ilusão. As pessoas aparentemente gostam de ilusões, principalmente aquelas que inflam seu ego. Gostam de se sentir importantes. Eu fui contra essa tendência. Eu não quero ser reconhecido por uma patente, quero ser reconhecido pelo o que sei e pela minha capacidade de ajudar os outros e transformar a realidade. Isso sim é algo verdadeiramente nobre.
Veja, viver é um grande mistério, pois todos nós estamos jogando o jogo da vida pela primeira vez e aprendendo ao passo que jogamos. Temos que lidar com as incertezas da melhor forma possível e isso só é possível por meio da aceitação das regras do jogo, da aceitação de si e dos outros ao seu redor.
Aprendi que preciso me expor mais ao desconhecido. É necessário saber seguir em frente sem ter todas as certezas que estamos acostumados. É preciso viver como se estivesse vivendo pela segunda vez, e evitar todos os erros que você cometeu na “primeira”, se antecipando às situações indesejadas.
Aprendi sobre a importância de exercitar o autocontrole. A cada dia que você consegue suprimir um vício que orbita o seu comportamento, você fortalece o seu músculo de controle. Você fortalece o braço que manobra o leme, o mesmo que ajusta o rumo da vela e repara o casco. A autoconsciência nos permite isso, viver uma vida mais completa de significado, em que as suas ações estão alinhadas com a sua missão.
Quando não consegui dar conta disso e me comportei da forma contrária em que acredito, senti culpa.
Mas aprendi que o sentimento de culpa é apenas uma dopamina barata. Às vezes nos colocamos no estado de culpa para nos torturar e achar que isso vai tornar as coisas melhores. Não vai. A culpa é inútil. A culpa não torna nada melhor. Se perdoe e siga em frente, tornar a vida dos outros melhor é o caminho. O ego te prende, a solidariedade te liberta. Redespertar a sua autoconsciência e enxergar os grilhões invisíveis.
Nesse ano aprendi que eu não sou a voz que está na minha cabeça. Essa voz muitas vezes mais atrapalha do que ajuda, evocando pensamentos nocivos e agressivos que impedem qualquer progresso como ser humano. Cuide de si mesmo como cuidaria de alguém sob sua responsabilidade. Nunca essa frase não poderia ser mais adequada para os tempos modernos. Vivemos tempos de paz (pelo menos no meu país) e sou grato por isso, mas temo que grande parcela das pessoas não vive tempos de paz em suas cabeças e não as culpo.
Sei que tenho que exercer um trabalho ativo — devo ser um guardião sempre atento aos meus pensamentos, como um vigia experiente de um museu com artefatos raros. Mas não posso impedir a entrada de forma agressiva, pois isso só piora as coisas. Devo apenas observar atentamente os pensamentos transitantes e lhes desejar um bom dia educado. Seja como um espelho, Sidarta diria, seja capaz de replicar o reflexo de tudo, mas não fique com nada para si que não queira.
Nesse ano percebi como sou sortudo em ter uma família que me apoia, que me ajuda, que me sustenta como os pilares de uma ponte, como os ganchos de uma rede.
Também sou sortudo de ter encontrado sócios fora da curva, que possuem a mente afiada como uma navalha e demonstram a criatividade ampla como a dos artistas. Serei eternamente grato pela confiança em que depositaram em mim e lutarei até o fim para mostrar que eles fizeram a escolha certa.
Nesse ano ficou mais claro pra mim que de nada adianta fazer nessa vida se não pensarmos em retribuição. Se não estamos aqui para tornar a vida do próximo melhor, o que estamos fazendo aqui?
Eu ainda não sei qual é a minha missão aqui, mas sinto que estou no caminho para descobrir.
Nesse fim de ano eu sempre tenho a impressão de que tudo passou rápido demais, mas quando olho com calma vejo que cada dia que se passou foi uma caixa cheia de experiências, algumas mais intensas, outras menos. Sinto que estou progredindo como ser humano.
Que o avanço continue, que a vida se torne mais simples, que o pensamento seja mais refinado, que a retribuição seja natural, que o ouvido seja amplo, que o amor seja espontâneo e que o “e comigo?” seja “e para todos nós?”.